MORREU JOSÉ FERNANDO O PADRE MOTARD
Written by: RCM em 2013-03-25 10:22:10
Faleceu ontem Domingo de Ramos, no Serviço de Medicina Paliativa do Hospital do Fundão o Padre José Fernando Cruz Lambelho.
Será sepultado na próxima quarta-feira, pelas 15 horas e 30 minutos, no cemitério de Aldeia de Joanes-Fundão, onde nasceu no dia 11 de Janeiro de 1958. Por sua expressa vontade não quer flores no funeral. Pediu que o dinheiro a gastar nessas flores seja dado aos pobres ou entregue numa instituição de solidariedade social.
José Fernando Cruz Lambelho o “padre motard” foi distinguido pela Rádio Clube de Monsanto como a personalidade regional do ano de 2012.
Recordamos que o Padre José Fernando acompanhou em missão espiritual, no mês de Agosto de 2012, a meia centena de peregrinos à Terra Santa, em comemoração dos 27 anos da Rádio Clube de Monsanto, a todos tendo marcando de forma indelével e inesquecível.
O Padre José Fernando lutava desde 2005 contra uma doença grave e estava a atravessar uma fase complicada e muito sofredora.
O Padre José Fernando Cruz Lambelho é um ícone. Apaixonado por motos, conquistou milhares de fãs, que enchiam as suas megamissas.
A Rádio Clube de Monsanto perdeu um grande Amigo e associa-se à Família nesta hora de luto e dor.
Deus chama os bons para o Céu.
Que descanse em Paz, pois bem merece.
Um sacerdote único, que pode conhecer melhor no livro publicado pelas Edições Estrela Polar, no Livro
“PADRE MOTARD
BOAS CURVAS…SE DEUS QUISER”

O livro é uma autobiografia. O padre José Fernando conseguiu conciliar o seu sacerdócio com o amor pelas motas, e foi o universo muito particular dos motards que, ao acolhê-lo, o retirou do anonimato, transformando-o numa figura de enorme popularidade a nível nacional. O seu carisma tem raízes numa profunda genuinidade, na fidelidade inabalável a si próprio, na capacidade de estar próximo das pessoas, de escutar sem julgar, sem nunca excluir e numa contagiante alegria de viver. "O padre Zé Fernando é o Sol!", dizem dele os "seus" motards. O surgimento de um cancro ("uma derrapagem…"), leva-o a fazer um desvio no seu percurso e a questionar-se, mas não à sua fé. Aceitando embora algumas limitações, vive agora um dia de cada vez, quase sem compromissos se não com os amigos, com a sua crença em Deus e na vida.
José Fernando Lambelho, 55 anos, o "padre motard" a sua alcunha é o título de uma autobiografia lançada há dois anos, não é uma pessoa normal. Beirão, nascido numa casa com vista para as serras da Estrela e da Gardunha, cresceu no campo, no meio dos animais, numa família pobre, um de vários irmãos.
Em 1969, foi para o seminário, primeiro no Fundão e depois na Guarda, porque percebeu que o País estava em guerra e não necessariamente por vocação.
E foi um choque. "Costuma dizer-se que galinha do campo não se dá em capoeira... " Estranhou todas aquelas normas.
Uma delas, a de dormir com as mãos sempre à vista, para evitar "pecados", é hoje tida como uma forma de tortura do sono. Vivia confinado a uma casa, obrigado a andar em silêncio e em fila, de sala de estudo em sala de estudo, com horários para levantar, estudar, rezar. Estranhou e chumbou o primeiro ano a todas as disciplinas. "Era um mundo de regras, fechado", recorda, hoje, o padre. "Mas, no ano seguinte, fui tão bom aluno que ganhei uma bolsa de estudo."
Estava, pois, bem encaminhado. Em 1974, porém, a queda da ditadura apanha José Fernando com apenas 16 anos. "Os livros falavam agora de revoluções e da Rússia. E de Cuba. E até de Marx. Tanta coisa que tinha sido escondida", escreve em o Padre Motard Boas Curvas... Se Deus Quiser (Edições Estrela Polar, em coautoria com Rosa Ramos). "Eu só me lembro de ver uma foice e um martelo já depois do 25 de Abril", diz.
No seminário da Guarda, o estudante troca cartas com amigas, recorrendo a um estratagema: elas só lhe escreveriam em nome de um padre co m quem José Fernando se correspondia, para que as mensagens não fossem interceptadas e lidas pelos responsáveis eclesiásticos. E, para o truque ser ainda mais perfeito, os envelopes vinham sempre com o mesmo selo, pequeno, mais barato, que o padre utilizava. Certa vez, o "amigo" escreveu-lhe quatro cartas na mesma semana e o esquema não ruiu por pouco.
O seminarista viria a gostar de Zeca Afonso e Sérgio Godinho, e a simpatizar com... o maoísta Arnaldo Matos, líder do MRPP. E era um ser irrequieto, com mais queda para a prática paroquial do que para a solidão monástica. Mudou-se para Évora, um dia antes de lhe ser comunicado que não deveria voltar ao Seminário da Guarda.
No Alentejo, encontrou um ambiente liberal, mais aberto. Foi estudar Teologia, mas decidido a não ser padre. "Mal cheguei ao seminário de Évora, deram-me uma chave", recorda. Havia horários, claro, mas "cada um era responsável pelas suas acções". Foi então que conheceu Maria, com quem viria a namorar vários anos. Só que o apelo de Cristo falou mais alto e um dia 9 de Janeiro de 1983, um domingo, lembra-se bem a relação acabou, entre choros e por mútuo acordo.
No Alentejo, ganharia a fama de " padre comunista". Em 1984, a pós ser ordenado na Sé de Elvas, é-lhe atribuída a paróquia de Reguengos de Monsaraz, onde os seus métodos pouco dados a hierarquias depressa o tornaram notado. Certa vez, por exemplo, recusou-se a dar a hóstia aos fiéis. O Vaticano dissera que a comunhão podia ser ministrada por padres ou por leigos, uma inovação com a qual concordara, mas que demorava a ser seguida: a fila dos leigos para receber a hóstia ficava vazia, a do padre sempre cheia. E, um dia, ele sentou-se e obrigou toda a gente que pretendia comungar a tomar a fila do acólito...
També m a sua amizade com Manuel Talhante, ateu, marxista-leninista e então à frente da Escola Secundária de Reguengos, onde o padre dava aulas de Religião e Moral, lhe valeria a fama de "esquerdalha".
Que hoje não admite nem renega: "Não tenho ideias de esquerda ou de direita.
Mas se eu defender, como o ex-bispo de Setúbal, que toda a gente tem direito a comer com uma toalha sobre a mesa e se isso é ser comunista, então sou comunista.
" Uma certeza possui: "A Igreja não deve ter o monopólio da salvação." O padre José Fernando cultiva uma postura prática e ecléctica que já lhe trouxe problemas. Por exemplo, quando foi repreendido por ter dado uma absolvição colectiva. Este espírito rebelde fá-lo por vezes criticar a Igreja. "Eu não percebo ", confessa, "que um homem unido e feliz com a mesma mulher há 15 ou 20 anos não possa comungar só porque esteve casado, uns meses, numa primeira relação que não correu bem..." Foi, porém, esta sua atitude que conquistou a alma dos motards que nunca tinham visto um padre deixar entrar uma moto na Igreja ou permitir que se ligassem os motores, ao ralenti, durante uma celebração, como acontece hoje, a cada Dia do Motociclista, na hora de lembrar os mortos.
É com uma abnegação quase sem limites que continua a conquistar os por vezes duros corações dos motards: ninguém que o visse ao longe, naquele restaurante de Carnaxide, alegre e sorridente, no meio de motoqueiros tatuados e guedelhudos, desconfiaria que o "nosso padre Zé" recebera, uma hora antes, uma notícia catastrófica: a doença de que padece há seis anos, um cancro nos rins, chegou já aos pulmões, onde tem instalado um tumor com sete centímetros. A morte pode não estar longe e ele sabe-o.
Mas não é isso que o desanima. "Eu precisava de autorização da Igreja para dizer isto, mas, para mim, a minha sobrevivência tem sido um milagre." A ciência e os médicos já não sabem o que fazer com ele, diz. "Ultrapassei todos os protocolos e tratamentos..." Nem a doença lhe cala as críticas. A questão do celibato, por exemplo, preocupa-o. Não pelo sexo, que "isso há por aí a rodos, o que não há é amor". Aflige-o a própria vivência dos padres mais velhos, quando a morte se aproxima: "Quem é que lhes dá o pão? Quem é que lhes dá carinho?", pergunta, sem ter respostas...





